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ENI vs Unipessoal Lda 2026 — comparação fiscal e simulação

IRS vs IRC, Segurança Social e quando compensa criar sociedade

Por Equipa Contribuinte.pt
Actualizado em
15 min de leitura
Índice do artigo

Resposta curta: O ENI paga IRS progressivo (12,5% a 48% em 2026) e 21,4% de Segurança Social sobre o rendimento relevante, e responde com todo o património pessoal. A Unipessoal Lda paga IRC (15% nos primeiros 50 000 € para PME, 19% acima), 28% sobre os dividendos e 34,75% de Segurança Social sobre a remuneração do gerente, e a responsabilidade fica limitada ao capital. Na nossa simulação para 80 000 € de facturação em serviços, a unipessoal com salário moderado sai cerca de 3 000 € mais barata por ano, mesmo pagando contabilista.

A diferença entre exercer actividade como empresário em nome individual (ENI) ou através de uma sociedade unipessoal por quotas vai muito além da forma jurídica. O regime fiscal, as contribuições para a Segurança Social, a responsabilidade patrimonial e as obrigações contabilísticas são diferentes, e a escolha errada pode custar milhares de euros por ano. Para uma visão de todas as formas jurídicas (Lda, SA, cooperativa) e dos custos de constituição, veja o guia Formas jurídicas de empresa em Portugal 2026.

Tabela comparativa — ENI vs Sociedade Unipessoal por Quotas

CritérioENISociedade Unipessoal Lda
TributaçãoIRS (Cat. B), taxas de 12,5% a 48% (escalões 2026)IRC: 19% (taxa geral em 2026) ou 15% nos primeiros 50 000 € (PME)
Segurança Social21,4% sobre o rendimento relevante (25,2% se for ENI com actividade exclusivamente comercial ou industrial)34,75% sobre a remuneração do gerente: 23,75% pagos pela sociedade e 11% pelo gerente
ResponsabilidadeIlimitada: o património pessoal respondeLimitada ao capital social
Capital social mínimoNão aplicávelQuota mínima de 1 €
NIFNIF pessoal do empresárioNIPC próprio da sociedade
ContabilidadeSimplificada ou organizada (organizada obrigatória acima de 200 000 € de rendimentos)Organizada (obrigatória)
Custos de constituiçãoSem registo comercial (só a declaração de início de actividade)220 € (Empresa Online, pacto pré-aprovado) ou 360 € (Empresa na Hora ou pacto próprio)
Distribuição de lucrosO rendimento é directamente do empresárioRetenção liberatória de 28%, ou englobamento a 50% do valor
Contabilista certificadoObrigatório apenas na contabilidade organizadaSempre obrigatório

Fontes: art. 68.º do CIRS, art. 87.º do CIRC, Guia Prático da Segurança Social — Trabalhador independente, gov.pt — taxas por conta de outrem, IRN — Empresa Online, arts. 71.º e 40.º-A do CIRS.

Tributação: IRS progressivo vs IRC fixo

ENI — IRS (Categoria B)

O empresário em nome individual é tributado em IRS na categoria B. No regime simplificado, aplicável quando os rendimentos anuais da categoria B não passam de 200 000 € (folheto da AT), só uma parte do rendimento bruto é tributada (art. 31.º do CIRS):

  • Vendas de mercadorias e produtos (e restauração e hotelaria): coeficiente de 0,15 (15% é tributado)
  • Actividades profissionais da tabela do art.º 151.º do CIRS: coeficiente de 0,75 (75% é tributado)
  • Outras prestações de serviços: coeficiente de 0,35 (35% é tributado)

Nos coeficientes de 0,75 e 0,35, 15% do rendimento bruto tem de estar justificado com despesas e deduções comunicadas (art. 31.º, n.º 13). A parte em falta é somada ao rendimento tributável. As contribuições obrigatórias para a Segurança Social só são dedutíveis na parte que exceda 10% do rendimento bruto (art. 31.º, n.º 2).

O rendimento líquido resultante é depois englobado com os restantes rendimentos do agregado familiar e tributado segundo os escalões de IRS de 2026 (art. 68.º do CIRS, na redacção da Lei n.º 73-A/2025):

EscalãoRendimento colectávelTaxa
1.ºAté 8 342 €12,5%
2.º8 342 € a 12 587 €15,7%
3.º12 587 € a 17 838 €21,2%
4.º17 838 € a 23 089 €24,1%
5.º23 089 € a 29 397 €31,1%
6.º29 397 € a 43 090 €34,9%
7.º43 090 € a 46 566 €43,1%
8.º46 566 € a 86 634 €44,6%
9.ºSuperior a 86 634 €48%

Se optar pela contabilidade organizada, o lucro apurado (receitas menos despesas documentadas) é tributado nos mesmos escalões.

Unipessoal Lda — IRC

A sociedade unipessoal paga IRC sobre o lucro tributável. Nos períodos iniciados em 2026 aplica-se o regime transitório da Lei n.º 64/2025, de 7 de Novembro, que reduziu a taxa geral em 1 ponto percentual face a 2025 (art. 87.º do CIRC):

  • Taxa PME: 15% sobre os primeiros 50 000 € de matéria colectável (PME e Small Mid Cap)
  • Taxa geral: 19% sobre todo o lucro tributável (empresas que não são PME) ou sobre o excedente acima de 50 000 € (PME)
  • Derrama municipal: até 1,5% do lucro tributável, conforme o município (art. 18.º da Lei n.º 73/2013)
  • Derrama estadual: 3%, 5% ou 9% sobre a parte do lucro tributável acima de 1,5 milhões €, 7,5 milhões € e 35 milhões €, respectivamente (art. 87.º-A do CIRC)

Quando o sócio único retira lucros da sociedade (dividendos), estes são tributados em IRS à taxa liberatória de 28% (art. 71.º do CIRS). Em alternativa, podem ser englobados, contando então só 50% do seu valor (art. 40.º-A). Existe por isso uma dupla tributação económica: o lucro paga IRC na sociedade e depois IRS na esfera pessoal quando é distribuído.

A taxa efectiva combinada (IRC + tributação dos dividendos) é:

ComponenteCálculoTaxa efectiva
IRC (taxa PME até 50 000 €)15%15%
IRS sobre dividendos (28% sobre o que sobra)28% × 85% = 23,8%23,8%
Total combinado (PME, até 50 000 €)38,8%
IRC (taxa geral 2026)19%19%
IRS sobre dividendos28% × 81% = 22,68%22,68%
Total combinado (geral)41,68%

Em 2025 a taxa geral de IRC era 20% e a taxa PME 16% (redacção anterior do art. 87.º), e o total combinado à taxa geral era de 42,4%. A Lei n.º 64/2025 prevê 18% em 2027 e 17% a partir de 2028.

Atenção: esta taxa combinada aplica-se apenas à parte distribuída como dividendos. O sócio-gerente também pode receber remuneração de gerência, que é um custo dedutível da empresa, mas que paga Segurança Social e IRS da categoria A. A simulação abaixo mostra que aumentar o salário nem sempre compensa.

Segurança Social: contribuições de cada regime

ENI — trabalhador independente

O ENI contribui como trabalhador independente. Os dados seguintes vêm do Guia Prático da Segurança Social:

  • Taxa: 21,4% para os trabalhadores independentes em geral, incluindo os prestadores de serviços. É de 25,2% para os empresários em nome individual com actividade exclusivamente comercial ou industrial e para os titulares de EIRL.
  • Rendimento relevante (sem contabilidade organizada): 70% do valor das prestações de serviços ou 20% das vendas de bens, com base nos três meses anteriores a cada declaração trimestral. A base mensal é um terço desse valor.
  • Contribuição mínima: 20 €/mês quando não há rendimentos ou quando a contribuição calculada fica abaixo desse valor.
  • Limite máximo: a base de incidência mensal não pode exceder 12 × IAS. Com o IAS de 537,13 € em 2026 (Portaria n.º 480-A/2025/1), o limite é de 6 445,56 €.
  • Com contabilidade organizada: a base mensal é um duodécimo do lucro tributável do ano anterior, com um mínimo de 1,5 × IAS (805,70 € em 2026).
  • Desemprego: só têm protecção no desemprego os ENI com actividade exclusivamente comercial ou industrial, os titulares de EIRL e os trabalhadores independentes economicamente dependentes.

Unipessoal Lda — gerente (MOE)

O sócio-gerente de uma sociedade é considerado membro de órgão estatutário (MOE). Aos MOE com funções de gerência ou administração aplica-se, desde 1 de Janeiro de 2013, a mesma taxa de 34,75% dos trabalhadores por conta de outrem (Guia Prático — Declaração de Remunerações):

ComponenteTaxaQuem paga
Entidade empregadora (a sociedade)23,75%Empresa
Trabalhador (gerente)11%Gerente
Total34,75%Repartido

A base de incidência é a remuneração efectivamente auferida pelo gerente, com um mínimo igual ao IAS (537,13 € em 2026), salvo se acumular com outra actividade com protecção social obrigatória ou com pensão (Guia da Segurança Social para entidades empregadoras). Uma remuneração mais baixa reduz a Segurança Social, mas também a protecção social futura.

Diferença prática: no ENI, a contribuição incide sobre o rendimento real. Na unipessoal, o gerente pode controlar a base contributiva através do valor da sua remuneração.

Responsabilidade patrimonial

Esta é muitas vezes a razão principal para passar de ENI a unipessoal:

  • ENI: responsabilidade ilimitada. Se o negócio gerar dívidas, os credores podem executar todo o património pessoal do empresário: imóveis, veículos, contas bancárias, investimentos.
  • Unipessoal Lda: responsabilidade limitada ao capital social. O património pessoal do sócio está protegido, salvo em casos de fraude, confusão patrimonial ou responsabilização por dívidas fiscais e à Segurança Social em que o gerente seja considerado responsável subsidiário.

Na prática, a protecção não é absoluta na unipessoal (a reversão fiscal existe), mas é muito superior à exposição total do ENI.

Obrigações contabilísticas

ObrigaçãoENI (simplificado)ENI (organizada)Unipessoal Lda
Contabilista certificadoNãoSimSim
Modelo 22 (IRC)NãoNãoSim
IES/DANão (só com contabilidade organizada)SimSim
Modelo 3 (IRS)SimSimO sócio-gerente entrega a sua própria declaração (rendimentos da categoria A, e dividendos se optar pelo englobamento)

Com contabilidade organizada, a declaração de início de actividade tem de ser apresentada por contabilista certificado, e a IES/DA é obrigatória (folheto da AT). As sociedades comerciais são sempre obrigadas a contabilidade organizada (art. 123.º do CIRC). Os honorários do contabilista variam muito; na simulação usamos um valor ilustrativo.

Exemplo numérico: quando compensa mudar

Considere um prestador de serviços de uma actividade da tabela do art.º 151.º, com 80 000 € de facturação anual, 20 000 € de despesas reais e sem outros rendimentos. Pressupostos: IRS de 2026 sem deduções à colecta, município sem derrama, todo o lucro distribuído e 3 600 €/ano de contabilista na sociedade. Os valores estão arredondados ao euro.

Cenário 1 — ENI no regime simplificado

  • Rendimento bruto: 80 000 €
  • Segurança Social: 80 000 € × 70% × 21,4% = 11 984 € (base mensal de 4 667 €, abaixo do limite de 12 × IAS)
  • Rendimento tributável: 80 000 € × 0,75 = 60 000 €
  • Dedução da Segurança Social na parte acima de 10% do bruto: 11 984 € − 8 000 € = 3 984 €
  • Rendimento colectável: 60 000 € − 3 984 € = 56 016 € (a exigência de 15% em despesas, 12 000 €, está cumprida com as despesas reais e as contribuições)
  • IRS (escalões 2026): 46 566 € × 26,472% + 9 450 € × 44,6% ≈ 16 542 €
  • Total IRS + SS ≈ 28 526 €

Cenário 2 — Unipessoal Lda com remuneração de 24 000 €

  • Receita: 80 000 €
  • Custos: despesas 20 000 € + remuneração do gerente 24 000 € + SS da empresa 5 700 € (23,75%) + contabilista 3 600 € = 53 300 €
  • Lucro tributável: 26 700 €
  • IRC (PME): 26 700 € × 15% = 4 005 €
  • SS do gerente: 24 000 € × 11% = 2 640 €
  • IRS sobre a remuneração (Cat. A): colectável de 24 000 € − 4 587 € (dedução específica de 8,54 × IAS, art. 25.º do CIRS) = 19 413 €, o que dá ≈ 3 202 €
  • Dividendos distribuídos: 26 700 € − 4 005 € = 22 695 €
  • IRS sobre dividendos: 22 695 € × 28% = 6 355 €
  • Total IRC + IRS + SS ≈ 21 902 €; com o contabilista ≈ 25 502 €

Cenário 3 — Unipessoal Lda com remuneração de 36 000 €

Se o gerente aumentar a remuneração para 36 000 €/ano (3 000 €/mês):

  • Custos: 20 000 € + 36 000 € + SS da empresa 8 550 € + contabilista 3 600 € = 68 150 €
  • Lucro tributável: 11 850 €
  • IRC: 11 850 € × 15% ≈ 1 778 €
  • SS do gerente: 36 000 € × 11% = 3 960 €
  • IRS sobre a remuneração (Cat. A): colectável de 36 000 € − 4 587 € = 31 413 €, o que dá ≈ 6 753 €
  • Dividendos: 11 850 € − 1 778 € = 10 073 €; IRS de 28% ≈ 2 820 €
  • Total IRC + IRS + SS ≈ 23 861 €; com o contabilista ≈ 27 461 €

Conclusão do exemplo

Com 80 000 € de facturação, a unipessoal com remuneração moderada (≈ 25 502 €, contabilista incluído) fica cerca de 3 000 € abaixo do ENI simplificado (≈ 28 526 €). Aumentar o salário para 36 000 € encarece a solução. Cada euro a mais de salário paga 34,75% de Segurança Social mais IRS marginal, o que fica acima dos cerca de 38,8% de IRC (15%) mais 28% sobre os dividendos. O resultado depende muito dos pressupostos: derrama municipal, honorários do contabilista, deduções à colecta, coeficientes reduzidos nos primeiros anos de actividade (art. 31.º, n.º 10, do CIRS) e a parte do lucro que fica na empresa. Peça a um contabilista certificado uma simulação com os seus números.

O coeficiente de 0,75 equivale a presumir despesas de 25% da facturação. Por isso, se o ENI tiver despesas reais acima de 25% do rendimento em serviços, a contabilidade organizada (no próprio ENI ou numa unipessoal) tende a ser mais vantajosa.

Factores que antecipam a vantagem da unipessoal:

  • Lucro elevado, que no ENI cairia nos escalões de 44,6% ou 48%
  • Despesas reais superiores a 25% do rendimento (em serviços)
  • Necessidade de protecção patrimonial
  • Intenção de reinvestir lucros na empresa: sem distribuição imediata, paga-se apenas o IRC
  • Perspectiva de crescimento e contratação de trabalhadores

Como fazer a transição de ENI para Unipessoal

  1. Constituir a sociedade: online, na Empresa Online, ou presencialmente num balcão Empresa na Hora.
  2. Cessação de actividade do ENI: nas Finanças, indicando a data de encerramento.
  3. Transferência de contratos e activos: clientes, fornecedores, contratos de arrendamento, equipamentos.
  4. Segurança Social: os ENI com actividade exclusivamente comercial ou industrial têm de declarar o início ou a cessação dessa actividade na Segurança Social Direta, no próprio mês (Guia Prático). A sociedade passa a declarar o gerente como MOE.
  5. Novo IBAN e facturação: a sociedade tem NIPC e conta bancária próprios.

O ideal é fazer a transição no início de um ano fiscal para simplificar as obrigações declarativas.

Próximos passos

Fontes


Ferramentas úteis