Resposta curta: Para trabalhar sozinho, as opções são o ENI (sem capital, responsabilidade ilimitada, IRS) ou a Sociedade Unipessoal por Quotas (capital livre, quota mínima de 1 €, responsabilidade limitada, IRC). Com sócios, a Lda exige pelo menos dois sócios e a SA cinco accionistas e 50 000 € de capital. Em 2026 o IRC é de 19%, ou 15% nos primeiros 50 000 € de lucro das PME, e criar uma sociedade online custa 220 € com pacto pré-aprovado.
Antes de constituir uma empresa em Portugal, a escolha da forma jurídica condiciona tudo: a responsabilidade pessoal do empresário, o capital exigido, a tributação aplicável e até a credibilidade perante clientes e banca. Este artigo compara as formas jurídicas disponíveis, com dados verificados para 2026 e as fontes oficiais no fim.
Tabela comparativa das formas jurídicas
| Forma jurídica | N.º mínimo de sócios | Capital social mínimo | Responsabilidade | Tributação principal (2026) |
|---|---|---|---|---|
| ENI (Empresário em Nome Individual) | 1 (titular) | Sem mínimo legal | Ilimitada (património pessoal responde) | IRS (Cat. B), taxas de 12,5% a 48% |
| Sociedade Unipessoal por Quotas (Lda) | 1 | Livre (quota mínima de 1 €) | Limitada ao capital social | IRC: 19% (geral) ou 15% nos primeiros 50 000 € (PME) |
| Sociedade por Quotas (Lda) | 2 | Livre (mínimo 1 € por quota) | Limitada ao capital social | IRC: 19% (geral) ou 15% nos primeiros 50 000 € (PME) |
| Sociedade Anónima (SA) | 5 (accionistas) | 50 000 € | Limitada ao valor das acções | IRC: 19% (geral) ou 15% nos primeiros 50 000 € (PME) |
| Sociedade em Comandita Simples | 2 (1 comanditado + 1 comanditário) | Sem mínimo legal | Mista (ilimitada para comanditados, limitada para comanditários) | IRC |
| Sociedade em Comandita por Acções | 6 (1 comanditado + 5 comanditários) | 50 000 € | Mista | IRC |
| Cooperativa | 3 (1.º grau) | 1 500 € | Limitada ao capital subscrito | IRC, com isenção para certos ramos |
Fontes da tabela: taxas de IRS, art. 68.º do CIRS; taxas de IRC, art. 87.º do CIRC e regime transitório da Lei n.º 64/2025 (19% em 2026, 18% em 2027 e 17% a partir de 2028); Código das Sociedades Comerciais, arts. 201.º, 219.º, 273.º, 276.º, 465.º e 479.º; Código Cooperativo, arts. 11.º e 81.º.
Nota: O EIRL (Estabelecimento Individual de Responsabilidade Limitada) continua previsto no Decreto-Lei n.º 248/86, com capital mínimo de 5 000 € (art. 3.º). Pode, a todo o tempo, transformar-se em sociedade unipessoal por quotas mediante declaração escrita do titular (art. 270.º-A, n.º 5, do CSC). Para quem quer responsabilidade limitada sem sócios, a Sociedade Unipessoal por Quotas é a alternativa com capital livre.
ENI — Empresário em Nome Individual
O ENI é a forma mais simples de exercer actividade empresarial. Não requer capital social mínimo, não exige contrato de sociedade e a constituição resume-se à declaração de início de actividade nas Finanças, presencialmente ou no Portal das Finanças. Esta declaração tem de ser entregue antes de começar a actividade (gov.pt).
Vantagens:
- Sem registo comercial nem capital social: basta a declaração de início de actividade
- Simplicidade contabilística no regime simplificado de IRS, aplicável quando os rendimentos anuais da categoria B não passam de 200 000 € (folheto da AT)
- Decisão unilateral — não depende de outros sócios
Desvantagens:
- Responsabilidade ilimitada: se a empresa gerar dívidas, o património pessoal do empresário (casa, carro, poupanças) responde por elas
- A actividade usa o NIF pessoal do empresário; não há NIPC próprio
- Menor credibilidade percebida junto de clientes empresariais e instituições financeiras
O ENI é tributado em IRS, na categoria B (rendimentos empresariais e profissionais), podendo optar pelo regime simplificado ou pela contabilidade organizada. A comparação detalhada, com simulação, está no artigo ENI vs Unipessoal.
Sociedade Unipessoal por Quotas
Desde o Decreto-Lei n.º 33/2011, de 7 de Março, o capital social das sociedades por quotas, incluindo as unipessoais, é livremente fixado no contrato (art. 201.º do CSC). Nenhuma quota pode ter valor nominal inferior a 1 € (art. 219.º, n.º 3). Antes desta alteração, o mínimo era de 5 000 €.
A Sociedade Unipessoal por Quotas permite ao empresário individual beneficiar de responsabilidade limitada ao capital investido, mantendo o controlo total da empresa. O sócio único pode ser pessoa singular ou colectiva (art. 270.º-A do CSC).
Características práticas:
- A firma tem de conter “sociedade unipessoal” ou “unipessoal” antes de “Limitada” ou “Lda.” (art. 270.º-B do CSC)
- NIPC próprio, distinto do NIF pessoal do sócio
- Contabilidade organizada obrigatória (art. 123.º do CIRC) e tributação em IRC
Atenção: uma pessoa singular só pode ser sócia de uma única sociedade unipessoal por quotas, e uma sociedade por quotas não pode ter como sócio único outra unipessoal (art. 270.º-C do CSC). Se já tiver uma, terá de optar por uma Sociedade por Quotas com pelo menos dois sócios, ou transformar a existente.
Sociedade por Quotas (Lda)
É a forma jurídica mais utilizada em Portugal. Requer no mínimo dois sócios e quotas de pelo menos 1 € cada (na prática, mínimo de 2 € para dois sócios). Só o património social responde perante os credores pelas dívidas da sociedade, mas os sócios são solidariamente responsáveis por todas as entradas convencionadas no contrato (art. 197.º do CSC).
A gestão é assegurada por um ou mais gerentes, que podem ser sócios ou terceiros. Nas deliberações dos sócios conta-se, em regra, um voto por cada cêntimo do valor nominal da quota (art. 250.º do CSC).
Quando escolher a Lda:
- Negócios com dois ou mais sócios que querem limitar a responsabilidade pessoal
- Projectos que necessitam de credibilidade institucional (contratos públicos, acesso a financiamento bancário)
- Actividades com risco patrimonial relevante
Sociedade Anónima (SA)
A Sociedade Anónima exige um capital social mínimo de 50 000 € (art. 276.º, n.º 5, do Código das Sociedades Comerciais) e pelo menos 5 accionistas (art. 273.º), salvo excepções legais. As acções podem ter ou não valor nominal, e todas representam a mesma fracção do capital (art. 276.º).
Nas entradas em dinheiro só pode ser diferida a realização de 70% do valor nominal ou de emissão das acções (art. 277.º, n.º 2), e o contrato não pode diferir essas entradas por mais de cinco anos (art. 285.º, n.º 1).
Quando faz sentido:
- Empresas de grande dimensão ou com perspectiva de crescimento significativo
- Projectos que pretendam captar investidores ou admitir títulos em mercado regulamentado
- Sectores regulados em que a lei exige a forma de SA
A administração e a fiscalização seguem uma de três modalidades (art. 278.º do CSC): conselho de administração e conselho fiscal; conselho de administração com comissão de auditoria e revisor oficial de contas; ou conselho de administração executivo, conselho geral e de supervisão e revisor oficial de contas.
Sociedade em Comandita
Existem dois subtipos, ambos com responsabilidade mista:
Comandita Simples: mínimo de 2 sócios (1 comanditado + 1 comanditário), sem capital social mínimo fixado no CSC. O sócio comanditado responde pelas dívidas sociais como um sócio de sociedade em nome colectivo; o comanditário responde apenas pela sua entrada (art. 465.º do CSC).
Comandita por Acções: não pode constituir-se com menos de cinco sócios comanditários (art. 479.º), a que se soma pelo menos um comanditado. Aplicam-se-lhe subsidiariamente as regras da SA (art. 478.º), incluindo o capital mínimo de 50 000 €.
Na prática, as sociedades em comandita são pouco usadas face à Lda e à SA.
Cooperativa
A cooperativa é uma pessoa colectiva autónoma, de livre constituição, regida pelo Código Cooperativo (Lei n.º 119/2015, de 31 de Agosto). Exige no mínimo 3 cooperadores nas cooperativas de 1.º grau e 2 nas de grau superior (art. 11.º). O capital social mínimo é de 1 500 €, salvo outro mínimo fixado para o ramo (art. 81.º). Se houver diferimento das entradas em dinheiro, pelo menos 10% do capital tem de estar realizado na constituição (art. 84.º).
Ao contrário das sociedades comerciais, a cooperativa não tem fins lucrativos (art. 2.º). Visa satisfazer as necessidades dos seus membros, e nas cooperativas de 1.º grau cada membro tem um voto, independentemente do capital (art. 3.º).
Tem regime fiscal próprio. As cooperativas agrícolas, culturais, de consumo, de habitação e construção e de solidariedade social estão isentas de IRC, excepto quanto aos resultados de operações com terceiros e de actividades alheias aos seus fins (art. 66.º-A do Estatuto dos Benefícios Fiscais, citado pela AT na informação vinculativa 28446).
Custos de constituição em 2026
| Via de constituição | Custo base | Observações |
|---|---|---|
| Empresa na Hora (balcão presencial) | 360 € | Lda, Unipessoal Lda ou SA (IRN) |
| Empresa Online (pacto pré-aprovado) | 220 € | 440 € se urgente (IRN) |
| Empresa Online (pacto elaborado pelos sócios) | 360 € | 720 € se urgente |
| Marca associada (Empresa na Hora) | 200 € (1 classe) | A tabela do IRN indica 44 € por cada classe adicional |
| Bens diferentes de dinheiro (imóvel, quota) | Variável | Acresce o registo da transmissão de cada bem, segundo o regulamento emolumentar |
| ENI (início de actividade) | Sem registo comercial | Apenas declaração de início de actividade no Portal das Finanças ou num serviço de Finanças |
Se não usar uma firma da bolsa de firmas nem a aprovação automática do nome, precisa de um certificado de admissibilidade de firma: 75 € (150 € se urgente) (IRN). A estes valores podem somar-se os honorários de contabilista certificado e o capital social (quota mínima de 1 €). Confirme os valores no portal de serviços do registo.
Na Empresa Online, o pagamento faz-se por MBWay, Multibanco ou cartão de crédito, no prazo de 48 horas após a submissão. Pode criar sociedades por quotas, unipessoais por quotas e anónimas.
Como escolher: critérios de decisão rápida
- Vai trabalhar sozinho e o risco patrimonial é baixo? ENI é suficiente.
- Sozinho mas quer proteger o património pessoal? Sociedade Unipessoal por Quotas.
- Dois ou mais sócios, negócio de pequena/média dimensão? Sociedade por Quotas (Lda).
- Grande dimensão, captação de investidores ou obrigação legal? Sociedade Anónima (SA).
- Projecto de economia social sem fim lucrativo directo? Cooperativa.
Em caso de dúvida sobre a forma mais adequada ao projecto concreto, consulte um contabilista certificado ou um advogado com experiência em direito societário. A escolha errada pode implicar custos desnecessários, responsabilidade pessoal indesejada ou constrangimentos no acesso a financiamento.
Próximos passos
- Consultar NIF de empresa em Portugal — investigue empresas existentes com forma jurídica idêntica antes de escolher a sua.
- Pesquisar códigos CAE — defina o CAE correcto (a CAE-Rev.4 produz efeitos desde 1 de Janeiro de 2025, pelo Decreto-Lei n.º 9/2025) antes da constituição.
- ENI vs Unipessoal — comparação fiscal 2026 — análise quantitativa de quando compensa criar sociedade.
Fontes
- Portal das Finanças — CIRS, art. 68.º (taxas gerais de IRS)
- Portal das Finanças — CIRC, art. 87.º (taxas de IRC) e norma transitória da Lei n.º 64/2025
- Portal das Finanças — CIRC, art. 123.º (contabilidade organizada)
- Portal das Finanças — Folheto Início de Atividade (IRS e IVA)
- Portal das Finanças — Decreto-Lei n.º 9/2025 (CAE-Rev.4)
- Autoridade Tributária — Informação vinculativa 28446 (art. 66.º-A do EBF)
- Ministério Público (PGR Lisboa) — Código das Sociedades Comerciais
- Ministério Público (PGR Lisboa) — Decreto-Lei n.º 248/86 (EIRL)
- Ministério Público (PGR Lisboa) — Código Cooperativo (Lei n.º 119/2015)
- IRN / Justiça — Criar Empresa na Hora
- IRN / Justiça — Criar Empresa online
- IRN / Justiça — Pedir o Certificado de Admissibilidade
- gov.pt — Abrir atividade nas Finanças